PSDB fez media training em CPI. E agora?
O Brasil tem duas Constituições, dois sistemas penais, dois parâmetros morais, dois padrões jornalísticos.
De um lado, pode-se fazer tudo. Desvia-se um bilhão de reais. Abre-se conta na Suíça para guardar esse dinheiro. Uma emissora sonega centenas de milhões. As informações vazam com documentos, provas, testemunhos.
Ninguém faz nada. Ninguém fala nada. Está tudo certo.
Do outro lado, pega-se um ministro comprando uma tapioca em Brasília. É acusado de usar indevidamente o cartão corporativo. O ministro diz que o cartão pode ser usado imediatamente fora de Brasília e por isso se confundiu. Pede desculpas e paga a tapioca do próprio bolso.
Cai o mundo. Cai o ministro.
Vejamos o novo “escândalo”.
O PSDB sempre fez media training em CPI, aberta e francamente. Inclusive divulga a estratégia para os jornais, que publicam a notícia.
A descoberta da notícia é do colega Stanley Burburinho, e foi publicada no blog Conversa Afiada.
A notícia é tão corriqueira que não merece nenhuma manchete, nenhum editorial, nenhuma indignação. É uma coisa normal. A CPI interessa à oposição, não ao governo, que tem preocupações outras. Governar, por exemplo.
Quando é o PT que faz a mesma coisa, é uma “fraude”, um “escândalo”!
Imaginem um ministro de Minas e Energia responsável pela crise do apagão de 2001 a 2002, que surrupiou bilhões de reais da economia e destruiu milhões de empregos.
Imaginem que esse mesmo ministro também estava à frente do Conselho de Administração da Petrobrás no momento em que a P-36, a maior plataforma de petróleo do mundo, afundou. Prejuízo: incalculável, porque a plataforma parou de produzir e morreu gente. Teríamos que calcular quanto custa construir uma nova plataforma, quanto se perdeu ao deixar de explorar petróleo por tantos anos e as consequências dessa queda de produção na balança comercial, e todo efeito-cascata disso.
Imaginem que rigorosamente a mesma pessoa também se envolveu com uma confusa troca de ações com uma subsidiária da Repsol na Argentina, provocando prejuízos de quase US$ 3 bilhões (em valores não atualizados).
Imaginem que esse indivíduo infeliz pertence ao grupo que governou o país por oito anos e hoje está na oposição.
Pois bem, agora a grande piada do milênio.
Imagine que esse mesmo ministro, após todas as cagadas que fez, se torna membro do Tribunal de Contas da União (TCU) e relator de um processo contra… a Petrobrás, a principal estatal do governo dominado pelo partido adversário.
A situação encaixa-se perfeitamente num romance fantástico de Gabriel Garcia Márquez.
A mídia, por sua vez, não faz nenhuma ponderação ao fato de José Jorge, ministro do TCU, ter um histórico incompatível com a necessidade de avaliar a Petrobrás com imparcialidade.
A bem da verdade, quem deveria ser investigado numa CPI é o próprio José Jorge.
Sob sua gestão, a Petrobrás não comprou nem construiu nenhuma refinaria, e sim vendeu as que tinha.
Para a imprensa brasileira, o escândalo é quando a Petrobrás amplia sua produção, o seu patrimônio e o seu faturamento.
Quando vende o que tem a preço de banana, na bacia das almas da especulação internacional, aí ela está “se modernizando”. Ninguém investiga as negociatas das privatizações.
Abaixo, artigo do Paulo Moreira Leite, sobre o mesmo tema.
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ONDE ESTÁ JOSÉ JORGE?
por Paulo Moreira Leite, em seu blog.
5 de agosto de 2014 -
O destino de José Jorge, ministro do TCU, relator de cinco denúncias contra diretores da Petrobrás, é alvo de justas preocupações por parte da CPI.